Reflexões

AME-SE!

Amar o outro é possível sem amor próprio? Cuidar do outro é possível sem cuidar de si mesmo? Vamos refletir um pouco sobre o tema.

Quando o sujeito esvazia-se de si mesmo, o que ele tem a oferecer? O amor não é doar-se?

Quando um ente querido envelhece, ou adoece, um parente se dispõe a cuidar deste. Começa doando um pouco de seu tempo, e pela necessidade e egoísmo alheio, acaba por doar todo seu tempo a causa. E mais que isso. Começa a deixar de lado o cuidar se. O sair já não se torna possível, o divertir-se, às vezes até o trabalhar. A dedicação se torna integral. Mas não para por ai. Aquele banho já não é demorado, a pausa para o café sempre em alerta. Até o sono a noite… “E se ele levantar, ou passar mal, ou se engasgar…” e sem perceber…só existe o Outro.

É lindo tanta dedicação, mas NÃO É. SAUDÁVEL! É preciso Cuidar de si. Não perder o contato consigo, não perder a identidade própria. Não tornar o outro culpado de seus dissabores. E não se fazer culpado pelo que vier a ocorrer com o outro.

É preciso ter cuidado para não se tornar Deus. Não querer ser onipresente, onisciente ou ainda onipotente. É preciso ser, simplesmente ser. Com os erros, e acertos que essa trajetória possa trazer.

Mas, ser. Ser o que sempre se foi (“antes dele adoecer eu era assim”, “antes dele nascer ela era assim”). Manter a essência, a luz própria. Mas como isso é possível?

Bem, antes de tudo, a vida não tem bula. E cada tem sua própria característica, personalidade, essência e forma de lidar com a vida. Mas, procurar apesar de tudo, manter / respeitar o seu tempo de privacidade. Ter esse tempo. Reservar um tempo para meditação, reflexão, fazer o que se gosta…ouvir musica, dançar, ler, caminhar, correr, banhar-se demoradamente, vestir-se para si mesmo. Sim. Vc é importante por isso deve se.olhar no espelho e gostar do que vê. E quando fizer isso, chegue bem perto. Mais perto. Olhe-se nos olhos e pergunte: estou EU cuidando de mim? Estou eu me amando? Estou eu me preenchendo ? De que?
Cuidar é necessário! Cuidar-se é essencial para o adoecimento não chegar ao cuidador.

O adoecimento pessoal, social, financeiro, emocional. Perceber essa tênue linha que limita o eu do outro só é possível conhecendo muito suas fronteiras. E vigiando para que a invasão territorial não se instale a ponto de perder o domínio próprio.

“Amai o próximo como a TI MESMO”

E aí? Como está seu amor próprio?


Viver é o Máximo!

Durante toda nossa vida, estamos estipulando metas, vencendo obstáculos, trilhando caminhos. Porém, em determinado momento da vida, nossas metas se recostam no sofá da sala, pois nossos filhos já não estão em casa, cônjuges já se foram, ou todos estão cuidando de suas ocupações. E …sobramos…

As lembranças recentes deixam de existir, pois não há fatos novos a lembrar. As lembranças longínquas tendem a tomar conta do nosso pensar. Não há porque lembrar que hoje é domingo, se não há nada novo para fazer na segunda, ou na terça…apenas o acordar, se alimentar, banhar-se, e o sofá. Talvez se algum parente puder, quem sabe, nos levar a algum lugar… afinal, as articulações já não são as mesmas, nem tampouco o equilíbrio. E para que falar alto, se ninguém vai ouvir? E o que ouvir?

Bem, perceberam que estou falando do ato de envelhecer? E que todos passaremos por isso, de alguma forma?

Sim, todos envelheceremos. Mas, não precisa ser dessa forma. Se cuidarmos hoje dos que estão envelhecendo ao nosso redor, nossos pais, avós, tios, irmãos, amigos, estaremos cuidando também de nós. E porque não cultivarmos um projeto de vida, na vida deles. Sabe aquele almoço de domingo que toda a família se reúne? Aquele passeio de sábado à tarde na pracinha? Parece pouco né? Mas, não é não.

Nosso tempo é pontuado por fatos que ocorreram ou ocorrerão. Os compromissos tornam nossa vida ativa. Em excesso nos trazem ansiedade, mas a ausência deles nos leva a morbidade.

Isto serve para todas as idades. Para nossas crianças, que se ostralizam nos jogos eletrônicos. Os adultos que deixam de viver para sobreviver e nossos velhos, que acabam por acreditar que não há mais nada por fazer.

Vamos estipular pequenos projetos em nossas vidas, e nas vidas deles. Projetos de Vida. Criar rotinas… Aquela hidroginástica que nunca temos tempo. Aquela caminhada que nunca acontece. O levar o filho a pracinha. Ir à praia. Resgatar o almoço em família. Planejar uma viagem. Um encontro de amigos. Pequenas metas, a cumprir. E outra maior será desvendada. O projeto Viver.

Viver é o máximo. E pode ser bem mais simples do que se imagina. Vale a pena investir nessa ideia.

Simone Maximo – Psicóloga.


O Outono da Alma.

Trago essa reflexão atendendo a pedido de uma filha que não consegue entender a mudança de seu pai quando a tão esperada aposentadoria chegou. Quando o que era esperado era a vontade de desfrutar tudo o que não se viveu, o que é observado é gradativo desanimo, apatia, desinteresse e isolamento.

Lembrando que não trago aqui um estudo de caso, mas apenas uma reflexão sobre determinado tema. E o tema de hoje é o LUTO.

Luto trata-se da perda do objeto de amor e a capacidade de lidar com essa perda e as situações conflitantes que surgem a partir desta. Assim sendo o luto ocorre durante toda nossa existência. O bebê que é retirado do seio para a mamadeira, mudança de casa, termino de namoro, aborto, divorcio, perda de emprego ou promoção, morte, abandono e porque não a aposentadoria?

Sempre que se cria expectativa em algo que se deseja muito, mas descobre-se que aquele objeto de desejo não está ao alcance, a frustração é eminente. E a partir desse momento a mente humana busca recursos para sobreviver a dor. Pode ser isolamento, rebeldia, apatia, irritabilidade, excesso de sono, insônia, choro, e até riso.

Assim como a estação, o luto é o momento que as folhas caem, os frutos desaparecem, o céu perde sua cor. Mesmo em dias de sol, ele nunca vai a pino, e o vento frio parece ser o único som a existir. O Outono da alma é assim. Os sonhos e planos caem por terra, pois aquele sujeito (emprego, alguém que partiu, projeto que não vingou, etc.) não existe mais. E aí? O que fazer com aquele quarto montado para um bebe que morreu? O que fazer com aquele lugar a mesa do café agora vazio após tantos anos? O que fazer quando ao chegar do trabalho não se tem mais o amigo de quatro pata. E a criança que aguarda o pai, e este não vem. E quando a doença chega trazendo imobilidade? O que fazer quando aquela tão esperada promoção, não acontece. E se ao invés da promoção, vem a demissão? E se esta demissão chega a dois anos da aposentadoria? E se a aposentadoria chega derrubando você para outra classe social?

Enfim, o luto ocorre em todo tipo de situação. E é necessário ser vivido. É necessário dar a mente, ao coração e a alma tempo para entrar em outra estação. Dar suporte para chegar ao inverno, quando ao invés de ser vivenciada a perda, esta é confrontada, dando lugar a mudanças de atitudes, de ares, de horizonte…

O luto não deve ser ignorado. Precisa ser vivido. E quem passa por ele, precisa de apoio, de amparo, de colo. Precisa ser ouvido. Externando de alguma forma o que foi contido, é possível liberar a alma, redirecionar as energias, dar novos significados a coisas antigas.

É possível sobreviver a dor. É preciso resiliência.